Webquest: textos

Texto 1: caso verídico

Karina

(Celso Antunes e Dagmar Garroux. Pedagogia do Cuidado: um modelo de educação social. Vozes, 2008, p. 39-41)

    Onze anos. Cabeça de criança, corpo de mulher. Karina sempre se apresentava agarrada à sua boneca e, se largava para esta ou para aquela brincadeira, jamais a esquecia, fazendo-a espectadora das brincadeiras e das atividades que toda tarde cumpria na Casa do Zezinho. Tia Dag sabia que seu corpo de mulher representava fome de cobiça na favela e, conhecendo como ninguém os riscos de uma vida sem proteção, jamais esquecia de incluir Karina nos papos que tinham sobre meios de evitar-se gravidez precoce. Sabia que a realidade do entorno não autorizava tempo para infância e que a força da sobrevivência fazia com que crianças de seis anos, não poucas vezes, pensassem como adultos. Cada dia a lição de vida precisava afastar-se de falsos moralismos, ajustando-se ao que era melhor possível. Por esse motivo nunca escondia o jogo e não adiava a mensagem, ensinando a todas como se esquivar do estupro e, se desejassem, como evitar gravidez ainda cedo demais. Acreditava que Karina, apesar dos olhos infantis, era extremamente inteligente e no instante devido haveria de saber como se prevenir. Por tudo isso é que a notícia colheu-a com surpresa...

    - Tia Dag, sabia que a Karina está grávida?!

    Fato consumado não impõe lamento, mas caminho, não requer desculpas, precisa soluções. Foi conversar com Karina...

    - E agora, filha? Já tão cedo carregando na barriga esse bebê? Você não aprendeu como impedir que isso acontecesse? E o pior, querida, é que sexo sem preservativo tem outras ameaças, sugere outros medos. Por que não evitou tudo isso, meu bem?

    - Não, Tia Dag. Eu aprendi muito bem a lição. Tanto que lá na rua sou a mais procurada para falar sobre esse assunto, até por pessoas mais velhas... Eu, nenhum momento tive dúvidas sobre como me precaver... Acontece que não fiz porque sempre sonhei em engravidar. Esse meu filho, Tia Dag, é esperado com carinho. Se desejasse sei até maneira de tirar, mas não deixo que falem nisso, quero-o mais que tudo na vida...

    - Mas será, anjinho, que você não poderia esperar um pouco mais? Ainda é assim tão novinha. Será que não há tempo para todos os tempos?...

    - Não, Tia Dag. A hora é agora e eu vou explicar para você por quê. O primeiro motivo porque quero essa criança é porque nunca tive família. Sei essa palavra, mas sei de escutar, não de sentir. Minha mãe me largou ainda quando não lembro e nunca tive a quem perguntar quem seria meu pai. Se o achasse, por certo iria querer mais que depressa se livrar de mim. Fui criada solta, tal como bicho, se virando aqui e ali, descobrindo no lixo restos que se podia comer e olhando com inveja outras crianças que tinham família. Você não acredita, mas até chorava sentindo falta de quem me desse uma bronca, um puxão de orelha. A única família que tenho sou mais eu e minha boneca de pano... É por isso que eu quero essa criança, ela vai ser começo de minha família. Pode ser até família sem pai, mas será uma família e esse meu filho vai ter mãe que o abraça, coloca no colo, grita e dá risada com ele... E, além disso, Tia Dag, tem mais um outro motivo...

    - Um outro motivo?

    - Pois é. Quando uma menina novinha fica grávida lá na favela o pessoal xinga e reclama, mas cuida melhor dela. Eu vou passar a ser a grávida da rua e não duvido que um ou outro até comida possa um dia me trazer. Pode deixar, Tia Dag, suas lições não foram inúteis e desde cedo eu sabia como evitar a gravidez. Sabia, mas não queria.

 

Texto 2: aluna,13 anos

Documentário - Meninas (Texto reflexivo, 8° ano 2008.)

 

O documentário "Meninas" foi feito com o objetivo de contar como é a gravidez na adolescência, porém virou uma banalização da vida.

As adolescentes vivem numa realidade muito diferente da nossa. As famílias são pobres, não têm uma boa qualidade de vida e os pais trabalham o máximo que conseguem. Desde cedo essas meninas enfrentam dificuldades e precisam cuidar dos irmãos mais novos, o que faz com que elas sejam carentes. Devido a este fato elas desejam ter filhos para mostrar aos outros que não são mais meninas, são mulheres.

Acontece que engravidam sem ter noção de tamanha responsabilidade, afinal de contas estão lidando com uma vida... Uma vida de uma criança que pode sofrer, passar pelas mesmas dificuldades e acabar seguindo o exemplo da mãe.

A falta de educação e experiência dessas adolescentes faz com que elas encontrem maneiras banais para resolverem os problemas.

Para mim, elas são influenciadas pelas mães, que às vezes ficam grávidas cedo, pelo tratamento que recebem em casa, pelo espaço onde vivem e pessoas com que convivem. As jovens moram nas favelas, frequentam bailes funks, bebem e 'ficam' com traficantes. Algumas querem estudar, mas a maioria prefere ir para a balada. São esses aspectos que explicam as suas atitudes.

O documentário é bem marcante e me mostrou uma outra realidade de uma forma que eu não esperava que fosse. Sei que existem muitas adolescentes grávidas, mas o que me impressionou foi que todas as quatro meninas desejavam a gravidez, e três delas engravidaram novamente.

Não consigo entender a relação familiar delas, é papel dos pais educar. Creio que os pais não tenham se conformado com o que aconteceu, mas eles poderiam ter evitado isso.

Temo ao pensar no que será do futuro deste país e no que podem se transformar todas essas crianças de mães adolescentes.

   

Texto 3: excertos

Ritos de passagem (Daniel Munduruku. Coisas de Índio. Callis Editora, 2000, p. 80-82.)

   

    (...) Em outros grupos, como os Krahô, também do Tocantins, determina-se a passagem da infância para a vida adulta a partir do momento em que meninas e meninos já podem procriar, isto é, por volta dos 13 anos. A partir dessa idade, os meninos e as meninas já participam das corridas de toras junto com os adultos, passando a ser considerados adultos também. A corrida consiste em percorrer uma distância de até 12 quilômetros trazendo sobre os ombros grandes toras de babaçu, que pesam até 90 quilos para os homens e 70 para as mulheres. As meninas passam a usar, também nessa época, um cinto chamado "ipré", que deixam de usar quando engravidam pela primeira vez.

    (...) As meninas do povo Kura-Bakairi também passam por um período de reclusão, que acontece na fase de sua primeira menstruação, que chamam "nhuncely". Essa reclusao pode durar de 15 dias a um mês. Nesse período, as meninas aprendem as coisas essenciais para o bom desenvolvimento da vida adulta. Às reclusas é permitido apenas o consumo de "chichas" (chás preparados à base de mate) e água. Ao sair da reclusão, as meninas têm que se comportar de uma outra maneira, pois não são mais crianças.

 

Casamento (Daniel Munduruku. Coisas de Índio. Callis Editora, 2000, p. 43.)

    Quase não existe o namoro entre os povos indígenas. O que existe é uma série de regras estabelecidas para o matrimônio entre dois jovens que já passaram pelos rituais de maioridade. (Veja Ritos de Passagem.) Um casal pode ser considerado noivo desde a mais tenra idade. A isso chamamos de "casamento arranjado", pois é quase sempre combinado pelos pais visando a concretização de uma aliança entre as famílias. As famílias se juntam para ajuda mútua. Mas nem sempre um noivado se transforma em casamento. E pode acontecer o matrimônio entre um homem maduro e uma menina.

Texto 4: excertos

Um país mais velho  (Atualidades, vestibular + Enem. Guia do Estudante. Abril, 2012, p. 139.)

    (...) O aumento de 12% da população nos últimos dez anos ficou bem abaixo dos 15,6% registrados na década anterior (1991-2010), o que comprova que o ritmo de crescimento populacional vem caindo. A principal razão para essa redução é a queda na taxa de fecundidade das brasileiras. Os resultados preliminares do Censo de 2010 ainda não atualizaram esse dado. Mas projeções e estimativas feitas pelo IBGE nos últimos anos mostram que a taxa, que era de 6,3 filhos por mulher em 1960, atingira apenas dois filhos em 2006 e 1,8 filho por mulher em 2010...

 

Dados de Infográfico (Atualidades, vestibular + Enem. Guia do Estudante. Abril, 2012, p. 135.)

 

A escolarização em massa tomou impulso no Brasil nos anos 1970. De 1970 até 2010, a taxa de analfabetismo foi reduzida em mais de dois terços.

 

Analfabetismo das pessoas de 15 anos ou mais: 33,6% (1970). 9,6% (2010).

 

Repetência e evasão, males do ensino no Brasil (apud Atualidades, vestibular + Enem. Guia do Estudante. Abril, 2012, p.97)

Demétrio Weber e Carolina Benevides para O Globo, 2/5/2011.

O vendedor Yohann Moura parou de estudar no ano passado, ainda na 1ª série do Ensino Médio. Aos 19 anos, ele é o retrato de um dos desafios da educação brasileira: reduzir a repetência e a evasão, garantindo que mais jovens concluam o ciclo básico. Num país onde quase todas as crianças têm acesso à escola, menos da metade consegue, na idade prevista, terminar os ensinos Fundamental e Médio.

A última Pnad (2009), do IBGE, revela o abismo que se cria nas salas de aula. De cada cem crianças na faixa de 7 anos, 98 frequentavam a escola. Mas, quando se olha para os jovens de 15 anos - idade em que todos já poderiam ter concluído o Ensino Fundamental - só 47% chegaram lá. No caso do Ensino Médio, é ainda pior: apenas 37% da população de 18 anos tinha o certificado de conclusão.